30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas
O Palco Global onde o biogás e biometano buscam seu lugar de destaque na transição energética
A realização da COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) acontecerá entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025, na cidade de Belém, no estado do Pará, Brasil. A conferência, no coração da Amazônia, não é apenas um evento diplomático; é uma declaração de intenções. Simboliza a urgência de conciliar desenvolvimento e preservação e coloca o Brasil no centro de um dos debates mais críticos do nosso tempo: como operacionalizar, de forma justa e eficaz, a transição para uma economia de baixo carbono. Herdando o mandato da COP28 de "transicionar dos combustíveis fósseis", a 30ª Conferência das Partes terá como missão central transformar essa ambição em ações mensuráveis, materializadas nas Novas Metas Nacionais (Contribuições Nacionalmente Determinadas – NDCs) que os países devem apresentar.
Neste contexto, o país anfitrião é desafiado a liderar pelo exemplo. Para além da fundamental pauta das florestas e do financiamento climático, o Brasil possui uma cartada estratégica: posicionar-se como uma potência energética verde. E é aqui que os combustíveis sustentáveis, em especial o biogás e o biometano, emergem como protagonistas potenciais na narrativa brasileira para o mundo.
A relevância desses biocombustíveis na COP30 é inevitável, sustentada por uma combinação poderosa: o potencial nacional e a convergência com agendas globais urgentes. Estudos do ABiogás revelam um potencial teórico brasileiro, estimado em 120 milhões de m³/dia de biometano, um volume capaz de revolucionar nossa matriz energética, substituindo grande parte do diesel e do gás natural importado. Mais do que um número, este é um argumento geopolítico sólido.
O biogás e o biometano são, por natureza, soluções multifacetadas. Eles atendem simultaneamente a três frentes críticas:
- Descarbonização de setores complexos: enquanto a eletrificação avança, setores como transporte pesado, aviação e indústrias de alto calor dependem de moléculas energéticas. O biometano renovável é a resposta mais pronta para descarbonizá-los.
- Economia circular: transformam passivos ambientais, resíduos agroindustriais, urbanos e de esgoto, em ativos energéticos, promovendo uma gestão inteligente de resíduos e criando nova riqueza a partir do que seria lixo.
- Combate às mudanças climáticas: ao capturar o metano (gás com poder de aquecimento 80 vezes superior ao CO₂) da decomposição de matéria orgânica, os projetos de biogás são uma ferramenta direta para que o Brasil e outros signatários cumpram suas metas no Pacto Global do Metano.
Para que este potencial se concretize em escala global, espera-se que a COP30 seja o palco para a construção de uma estratégia baseada em três pilares: a criação de mecanismos financeiros robustos (como fundos verdes e integração com mercados de carbono), o fortalecimento da cooperação tecnológica internacional (especialmente por meio de iniciativas Sul-Sul) e a harmonização de marcos regulatórios que facilitem o comércio global do biometano.
Diante deste cenário estratégico, o setor produtivo se mobiliza. Quais são as expectativas concretas da indústria? Que ações já estão sendo planejadas para influenciar as negociações? E como vencer as barreiras que ainda impedem a explosão desse mercado?
Para responder a estas e outras questões cruciais, o Portal Energia e Biogás conversou com a presidente executiva da ABiogás, Renata Isfer, que detalha a posição da associação, as ações em curso e a visão para transformar a COP30 em um marco histórico para o setor de combustíveis sustentáveis.
1. Portal Energia e Biogás: Qual é o principal resultado tangível que o setor de biogás espera da COP30?
Renata Isfer: O principal resultado que esperamos é o reconhecimento formal dos combustíveis sustentáveis como pilar da transição energética global, por meio do Belém Pledge. Essa iniciativa, liderada pelo Brasil, propõe quadruplicar a produção mundial de combustíveis sustentáveis, incluindo o biogás e o biometano, até 2030. Isso representa um marco histórico, porque pela primeira vez uma COP colocará as moléculas renováveis no centro da agenda climática. Esse movimento cria segurança regulatória e sinalização positiva para investimentos no setor, abrindo espaço para novas políticas públicas e instrumentos financeiros voltados ao biometano.
2. Quais são as ações que a ABiogás já está planejando para a COP30?
Renata Isfer: A ABiogás está estruturando uma agenda robusta de atuação institucional em Belém, com foco em três frentes: conteúdo técnico, posicionamento estratégico e articulação internacional.
Teremos participação em painéis oficiais, eventos paralelos e debates temáticos sobre combustíveis sustentáveis, transição energética e descarbonização do agronegócio. Também estamos preparando o lançamento de estudos e manifestos setoriais, que trarão dados atualizados sobre o potencial do biogás no Brasil, o papel do biometano na matriz energética e os impactos socioeconômicos do setor. Além disso, teremos um espaço dedicado ao biogás dentro do pavilhão brasileiro, onde associações, empresas e parceiros poderão apresentar projetos e tecnologias.
3. Como o setor pretende se conectar a temas centrais da COP30, como a Agricultura de Baixo Carbono (ABC+)?
Renata Isfer: O biogás é uma das principais ferramentas para viabilizar a agricultura de baixo carbono. Ele transforma resíduos agropecuários em energia limpa, biocombustíveis e fertilizantes orgânicos, reduzindo emissões e custos de produção. Nosso objetivo é mostrar, durante a COP30, que o biogás é o elo que une sustentabilidade, produtividade e renda no campo. O Plano ABC+ é uma plataforma ideal para essa integração, e a ABiogás está dialogando com o governo e com entidades do agronegócio para incluir metas de biogás e biometano nas estratégias nacionais de descarbonização rural.
4. Como o biogás de aterros e de esgoto pode ser apresentado como solução para a crise do lixo e energia limpa nas cidades?
Renata Isfer: O biogás urbano é uma resposta concreta aos desafios da gestão de resíduos e da geração distribuída de energia. Ele permite transformar passivos ambientais em ativos econômicos, reduzindo emissões de metano e gerando eletricidade, combustível e crédito de carbono. Nas cidades brasileiras, o potencial é imenso: temos capacidade de suprir parte relevante da demanda energética local apenas com resíduos sólidos urbanos. Queremos destacar na COP que a transição energética também começa nos municípios, e que o biogás é um vetor para políticas integradas de saneamento, energia e clima.
5. Quais são as principais barreiras regulatórias e de mercado e como a COP30 pode ajudar a superá-las?
Renata Isfer: As principais barreiras ainda estão na falta de previsibilidade regulatória e na baixa integração entre políticas de energia, resíduos e agricultura. O biogás opera em múltiplos setores, mas nem sempre encontra sinergia nas normas e incentivos. Precisamos de marcos regulatórios mais estáveis e convergentes e de mecanismos de precificação do carbono que valorizem o biometano. Além disso, é preciso aprimorar a infraestrutura de transporte no país. A COP30 será um palco estratégico para discutir isso com governos, bancos multilaterais e investidores, reforçando a necessidade de instrumentos financeiros e critérios internacionais de sustentabilidade aplicáveis ao biogás.
6. Qual a mensagem do setor aos investidores internacionais?
Renata Isfer: Nossa mensagem é clara: o biometano brasileiro é uma oportunidade real e madura de investimento sustentável. Temos tecnologia consolidada, portfólio crescente de projetos e um mercado interno em expansão, especialmente nos transportes, na indústria e no agronegócio. O biometano oferece retorno ambiental mensurável, gera créditos de carbono de alta integridade e contribui para metas ESG de empresas e fundos. Queremos mostrar que investir em biogás e biometano no Brasil é investir em segurança energética, descarbonização e impacto social positivo.
7. Qual é o potencial de geração de emprego e renda do setor, e como isso será destacado na COP30?
Renata Isfer: O setor de biogás tem um alto potencial de inclusão econômica e desenvolvimento regional. Estudos indicam que, com a plena expansão do biometano, o Brasil pode gerar cerca de 800 mil empregos. É uma cadeia que promove a economia circular e reduz desigualdades regionais.
8. Qual o legado que o setor de biogás deseja deixar após a COP30?
Renata Isfer: Queremos que a COP30 seja lembrada como o marco do reconhecimento global das moléculas renováveis. O legado que buscamos é consolidar o biogás e o biometano como pilares estruturais da transição energética justa, integrando campo e cidade, eletricidade e combustíveis, sustentabilidade e desenvolvimento. O Brasil, ao liderar essa agenda, tem a chance de mostrar que o futuro da energia será plural, descentralizado e inclusivo. E que o biogás é uma das chaves para equilibrar crescimento econômico e preservação ambiental.
O Portal Energia e Biogás agradece à presidente executiva Renata Isfer e a toda a equipe da ABiogás e de sua assessoria de impressa pela entrevista exclusiva.
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