O desperdício de energia limpa que o Brasil não pode mais ignorar
Como o biogás pode resolver?
Por Heleno Quevedo - Colunista do Portal Energia e Biogás
Você sabia que, só em janeiro de 2026, o Brasil desperdiçou 2,86 TWh de energia solar e eólica? Esse volume seria suficiente para abastecer por um mês inteiro uma cidade de mais de 5 milhões de habitantes.
Esse fenômeno tem nome: curtailment, o corte forçado da geração renovável quando há mais energia disponível do que a rede consegue absorver ou transportar.
Parece contraditório, não? Um país que tanto investiu em fontes limpas de energia agora se vê obrigado a desligar turbinas eólicas e painéis solares porque o sistema não consegue acompanhar. E o mais surpreendente é que a solução pode estar dentro de um problema que já conhecemos bem: os resíduos.
A dor silenciosa do setor elétrico
Em 2025, o curtailment atingiu 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido gerada no país. O prejuízo estimado: R$ 6,5 bilhões.
Os cortes não acontecem por acaso. Eles são provocados por três fatores principais:
- Excesso de oferta sem demanda suficiente (chamado de razão energética – ENE).
- Falta de linhas de transmissão para levar a energia a outras regiões.
- Necessidade de controle de frequência da rede (razão CNF), quando o operador reduz geração para evitar riscos de apagão.
O Nordeste é a região mais afetada. Lá, o Rio Grande do Norte responde sozinho por 36% de todo o curtailment nacional.
E o pior: as projeções indicam que, mantido o ritmo atual, o desperdício pode saltar para 27,7% em 2030, a menos que algo mude.
E se, em vez de desligar turbinas, a gente ligasse biodigestores?
Aqui entra o biogás. Não como substituto da solar ou eólica, mas como complemento estratégico.
Por que o biogás é tão especial? Porque ele reúne três qualidades que o vento e o sol não têm:
- É armazenável: você estoca o biogás num gasômetro e usa quando quiser.
- É despachável: aciona o motor-gerador sob demanda, sem depender do clima.
- É programável: pode operar exatamente nos momentos de maior necessidade da rede.
Ou seja: enquanto a energia solar só aparece de dia, e a eólica quando o vento sopra, o biogás fica ali, pronto para agir nos momentos críticos, especialmente quando o sol está fraco ou o vento parou, e a demanda ainda é alta.
As usinas híbridas: o melhor dos dois mundos
A usina híbrida combina mais de uma fonte de geração no mesmo ponto de conexão. E a solar + biogás (ou eólica + biogás) é uma combinação natural.
Imagine uma planta que:
- Gera energia solar durante o dia, quando há sol abundante.
- Usa o biogás armazenado à noite e nos períodos de pico de consumo.
- Evita cortes porque pode reduzir a injeção solar no meio do dia (quando há curtailment) e compensar depois com o biogás.
Essa lógica já é reconhecida pela ANEEL desde 2021 (Resolução Normativa nº 954), que regulamentou as usinas híbridas. Só falta… incentivo para sair do papel.
O gigante adormecido: Brasil tem o maior potencial de biogás do mundo
Agora o dado que deveria estar estampado em todo plano energético nacional: o Brasil pode produzir entre 80 e 85 bilhões de Nm³ de biogás por ano, o equivalente a 174 TWh/ano de eletricidade.
Isso representa 35 a 40% de toda a demanda elétrica do país.
E de onde viria esse biogás?
- Do setor sucroenergético (um terço do potencial)
- Da pecuária e agroindústria (outro terço)
- Do saneamento básico (cerca de 10%)
Já existem 1.803 plantas de biogás em operação no Brasil. Mas a produção atual representa apenas 2–3% do potencial técnico. É como ter um tesouro enterrado no quintal e ainda importar gás do outro lado do mundo.
Por que o biogás é melhor que baterias para combater o curtailment?
Baterias são ótimas. Mas têm uma limitação de custo e duração que o biogás não tem.
Comparação técnica: Bateria (BESS) vs. Biogás + motor-gerador:
Duração da descarga
- Bateria (BESS): Consegue fornecer energia contínua por apenas 2 a 4 horas. Após esse período, precisa ser recarregada, o que limita seu uso em curtimentos prolongados (como finais de semana com baixa demanda e alta geração renovável).
- Biogás + grupo gerador: Pode operar por horas ou até dias seguidos, dependendo apenas do volume de biogás armazenado. Isso permite cobrir janelas inteiras de curtailment sem interrupção.
Custo para armazenamento de longa duração
- Bateria: Possui custo elevado para armazenamento de longa duração, tipicamente entre US200eUS 400 por kWh. Inviabiliza economicamente soluções que exigem descarga por muitas horas consecutivas.
- Biogás + grupo gerador: Apresenta custo baixo para armazenamento de longa duração. O biogás é estocado em gasômetros (simples e duráveis), com custo estimado entre US30eUS 60 por kWh equivalente, de 5 a 10 vezes menor que o das baterias.
Benefício adicional
- Bateria: Não gera nenhum benefício colateral além do armazenamento. A fabricação demanda minerais críticos e alto consumo energético.
- Biogás + grupo gerador: Entrega dois benefícios adicionais de enorme valor:
- Gestão de resíduos: transforma dejetos, lixo orgânico e efluentes em energia.
- Redução de metano na atmosfera: evita a emissão de um gás de efeito estufa 28 vezes mais potente que o CO₂.
Ciclo de carbono
- Bateria: Considerada neutra na operação, mas sua fabricação é intensiva em carbono e mineração. O balanço completo raramente é neutro.
- Biogás + grupo gerador: É genuinamente carbono negativo. Ao capturar o metano que seria liberado na decomposição de resíduos e queimá-lo para gerar eletricidade, evita-se que esse potente GEE chegue à atmosfera. O resultado: emissões negativas líquidas.
Em cenários de curtailment prolongado (fim de semana com vento e sol fortes e baixa demanda), as baterias simplesmente não aguentam. O biogás, sim.
Então, por que não estamos usando isso em larga escala?
Por três barreiras principais:
- Sol na frente: A geração distribuída solar responde por 99% da potência instalada no Brasil. O biogás fica invisível.
- Falta de precificação da energia firme: Ninguém paga extra pela confiabilidade que o biogás oferece ao sistema.
- Crédito e regulação ainda tímidos: O Renovabio ajuda, mas foca mais em combustível do que em eletricidade.
Mas há esperança. O Leilão de Reserva de Capacidade 2026 já contratou 100 empreendimentos com R$ 64,5 bilhões em investimentos, e parte significativa pode vir de bioeletricidade.
E agora? O próximo passo
O que falta, portanto, não é tecnologia. Falta alinhar incentivos.
Imagine se cada megawatt de biogás instalado ao lado de uma usina solar recebesse um bônus por reduzir o curtailment. Ou se o ONS pudesse acionar remotamente esses motogeradores quando a frequência da rede começa a oscilar.
A boa notícia: isso é factível em 12 a 24 meses com ajustes regulatórios, muito mais rápido do que construir uma nova linha de transmissão.
A má notícia: a cada mês que passa, o Brasil perde energia, dinheiro e credibilidade como líder renovável.
No próximo artigo, vamos mergulhar fundo em uma pergunta que pode mudar o jogo:
Como viabilizar economicamente usinas híbridas de biogás no Brasil?
Será que um projeto de biodigestor na sua fazenda, no seu aterro sanitário ou na sua cooperativa pode se tornar o lastro energético que o país precisa? Os dados sugerem que sim.
Até lá, fica a reflexão: por que continuamos tratando o biogás como solução de nicho, quando ele pode ser a chave para resolver um dos maiores paradoxos da nossa energia?
Principais referências consultadas
- ABiogás. Potencial brasileiro de biogás. Disponível em: abiogas.org.br.
- ANEEL. Resolução Normativa nº 954/2021 (usinas híbridas).
- CIBiogás. Brasil chega a 1.803 plantas de biogás. Abril 2026.
- EPE. Potencial de biogás de resíduos, horizontes decenais.
- ePowerBay. Curtailment: perdas já equivalem ao consumo de 26 milhões de casas. Publicado em março de 2026.
- ONS. Relatórios de operação: restrições de geração (ENE, CNF, REL). Acesso em maio 2026.
- Volt Robotics. Curtailment de 20% da geração solar/eólica em 2025, perdas de R$ 6,5 bi. Radar Energia XP, janeiro 2026.
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A coluna Biogás em Pauta aborda diferentes temáticas relacionadas com o processo de produção de biogás, destacando a relação com fatores ambientais, sociais, econômicos e corporativos.
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Autor: Heleno Quevedo
Este artigo não é de autoria do Portal Energia e Biogás. Os créditos e responsabilidades sobre o conteúdo são do autor. O Portal oportuniza espaço para especialistas publicarem artigos e análises relacionados ao mercado de biogás, biometano e digestato. Os textos não refletem necessariamente a opinião do Portal.



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