O biogás além do kWh

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Biogás vai além do kWh: geração de energia em fins de linha fortalece a rede elétrica, reduz perdas, melhora a tensão e presta serviços ancilares. Entenda como o biogás entrega estabilidade, segurança energética e novo valor ao setor (negligenciado). Saiba mais!
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Fotos: arquivo pessoal HQL.
Colunista
Biogás em pauta, por Heleno Quevedo

O vizinho invisível: o biogás além do kWh e a estabilidade das redes

A revolução silenciosa nos "fins de linha" da distribuição elétrica

 

Por Heleno Quevedo - Colunista do Portal Energia e Biogás

Introdução 

No cenário atual da transição energética, costumamos olhar para a geração distribuída (GD) ou para o Mercado Livre de Energia (ACL) sob a ótica puramente contábil: quantos quilowatts-hora (kWh) foram produzidos e quanto dinheiro foi economizado. No entanto, essa visão é limitada. Ela ignora um fenômeno físico fundamental que acontece nos bastidores dos cabos de energia elétrica e transformadores: o Fluxo de Potência.

Quando um grupo gerador a biogás é conectado em uma propriedade rural ou periurbana, tipicamente caracterizada como um "fim de linha" de distribuição, ele deixa de ser apenas uma fonte de energia para se tornar um pilar de sustentação para toda a infraestrutura local.

 

O fenômeno físico: o gerador como "vitamina" da rede

Redes de distribuição são, por natureza, radiais. A energia sai da subestação e viaja quilômetros, perdendo força (queda de tensão) devido à impedância dos cabos. Quem está no final da linha sofre com oscilações, luzes piscando e queima de equipamentos.

Aqui entra o papel didático da modelagem eletrotécnica. Ao inserirmos um gerador a biogás (uma máquina síncrona rotativa) nesse ponto frágil, invertemos a lógica do fluxo. O gerador não apenas injeta energia ativa (aquela que realiza trabalho), mas oferece inércia e potência reativa. Em termos simples: ele "segura" a tensão da rede, impedindo que ela caia bruscamente quando o vizinho liga uma máquina pesada de solda ou um sistema de irrigação. O gerador funciona como um amortecedor elétrico, enrijecendo uma rede que antes era fraca.

 

O desafio da monetização: quem paga pela qualidade?

O argumento central para o futuro do setor reside aqui:

o dono do gerador a biogás está prestando um serviço de luxo para a concessionária e para os vizinhos, muitas vezes de graça.

Atualmente, o modelo de negócios remunera a entrega de energia gerada. Mas quem remunera a estabilidade? A presença desse gerador reduz as perdas técnicas da concessionária (pois a energia é consumida ali mesmo, sem viajar quilômetros) e diminui a frequência de cortes de energia na região. Esses benefícios são chamados de Serviços Ancilares¹.

O grande desafio, e a grande oportunidade, é quantificar isso. Precisamos de estudos de fluxo de carga que comprovem matematicamente: "Sem este gerador a biogás, a tensão nesta rua cairia para 190V às 18h. Com ele, ela se mantém em 230V." Transformar essa melhoria técnica em um ativo financeiro é a chave para novos modelos de negócios.

 

Biogás: a descarbonização com segurança

Diferente da energia solar e energia eólica, que são fontes intermitentes, o biogás é uma fonte despachável. Ele pode ser ligado exatamente na hora em que a rede mais precisa (o horário de ponta). Isso cria uma simbiose perfeita entre descarbonização e segurança energética. Em zonas rurais, onde a qualidade de energia é crítica para a agroindústria, o biogás deixa de ser apenas tratamento de resíduos para ser a garantia de continuidade da produção, promovendo segurança e estabilidade na rede.

 

Pontos para reflexão

Para instigar sua curiosidade e olhar para o futuro do mercado, convido você a refletir sobre as seguintes provocações:

  • O valor do "não-apagão": quanto vale para uma granja, um laticínio ou uma indústria vizinha não ter a energia cortada? Se o seu gerador a biogás evita que a rede caia, você não deveria receber uma parcela desse "seguro"?
  • O novo ouro da rede: Com a entrada massiva de carros elétricos e ar-condicionado, as redes vão sofrer como nunca. O biogás será o "bombeiro" local? Será que o modelo de negócio do futuro não é vender energia, mas vender estabilidade de tensão (VArs) para a concessionária?
  • Vizinhança energética: Imagine um condomínio rural onde o produtor de biogás vende energia mais barata e estável diretamente para os vizinhos via peer-to-peer (troca direta de energia entre consumidores e produtores, via plataformas digitais, permitindo vender excedentes localmente de forma segura, eficiente e descentralizada), garantindo que, mesmo se a concessionária falhar, a comunidade local continue operando em ilha. Estamos prontos regulatoriamente para isso?
  • A prova matemática: Você, que possui gerador a biogás (UTE) sabe dizer, hoje, o quanto o seu projeto melhora a vida do seu vizinho? Sem medir e simular o fluxo de potência, estamos deixando dinheiro e argumentos políticos na mesa.

 

Considerações Finais

Sobre a geração de energia elétrica, o biogás é a única fonte renovável que resolve três problemas simultâneos: o saneamento (tratamento de passivos), possibilidade de recuperação de nutrientes e a "saúde" da rede elétrica (qualidade de energia). Escalar esse mercado exige que paremos de vender apenas kWh e comecemos a vender confiabilidade, eficiência e segurança energética. O futuro pertence a quem conseguir medir e cobrar por esses benefícios invisíveis.

 

Referências consultadas e dicas de leitura

 

¹ Serviços ancilares são funções essenciais que garantem a estabilidade, qualidade e segurança do sistema elétrico, mantendo o equilíbrio entre geração e consumo, o controle de frequência e tensão e a recuperação da rede após falhas. São prestados principalmente por geradores e, cada vez mais, por tecnologias de armazenamento, sob coordenação do ONS e regulação da ANEEL, sendo fundamentais para a integração de fontes renováveis. Biogás armazenado para despacho em geradores tem vantagens sobre outras tecnologias.

 

 

 

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A coluna Biogás em Pauta aborda diferentes temáticas relacionadas com o processo de produção de biogás, destacando a relação com fatores ambientais, sociais, econômicos e corporativos.

 

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Autor: Heleno Quevedo

Este artigo não é de autoria do Portal Energia e Biogás. Os créditos e responsabilidades sobre o conteúdo são do autor. O Portal oportuniza espaço para especialistas publicarem artigos e análises relacionados ao mercado de biogás, biometano e digestato. Os textos não refletem necessariamente a opinião do Portal.

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