A importância dos aterros sanitários na cadeia produtiva do biogás e biometano no Brasil
Potencial, desafios e perspectivas de investimento
Por Fábio Rubens Soares
A transição energética e o novo papel dos aterros
A transição energética global tem impulsionado de forma crescente a busca por fontes renováveis capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que promovem segurança energética e desenvolvimento sustentável. Nesse cenário, o biogás e o biometano surgem como alternativas estratégicas, especialmente em países com grande disponibilidade de resíduos orgânicos, como é o caso do Brasil. Dentro dessa cadeia produtiva, os aterros sanitários assumem um papel central e cada vez mais relevante. Tradicionalmente considerados apenas como solução para a disposição final de resíduos sólidos urbanos, esses empreendimentos passam por um processo de transformação conceitual e operacional, sendo atualmente reconhecidos como importantes plataformas de geração de energia renovável, inseridas no contexto da economia circular.
O Brasil gera aproximadamente 77 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, um volume expressivo que evidencia tanto o desafio quanto a oportunidade associada à gestão desses materiais. Aproximadamente metade desse valor é composto de resíduos orgânicos, matéria prima para a biodigestão anaeróbia que produz o biogás. Apesar desse grande volume, ainda existe uma parcela significativa de resíduos que não recebe destinação ambientalmente adequada, sendo encaminhada para lixões ou aterros controlados. Os aterros sanitários modernos, por sua vez, são estruturas de engenharia complexas, projetadas com sistemas de impermeabilização do solo, coleta e tratamento de chorume, além de sistemas de drenagem e captação de gases. Esses elementos são fundamentais não apenas para minimizar impactos ambientais, mas também para permitir a captura eficiente do biogás gerado no processo de decomposição da matéria orgânica.
Bioquímica e composição do biogás de aterro
A formação do biogás em aterros sanitários ocorre por meio da decomposição anaeróbia dos resíduos orgânicos, processo realizado por microrganismos na ausência de oxigênio. Esse processo gera um gás composto majoritariamente por metano e dióxido de carbono, com concentrações típicas de metano variando entre 50 e 65 %, enquanto o dióxido de carbono representa entre 35 e 50 %. Além desses componentes principais, o biogás contém ainda pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio, siloxanos, vapor d’água e outros compostos traço. O metano, principal componente energético do biogás, possui elevado potencial de aquecimento global, o que torna sua captura e aproveitamento fundamentais tanto sob a ótica ambiental quanto energética.
No contexto brasileiro, os aterros sanitários são responsáveis por uma parcela significativa da produção de biogás. Estima-se que esses empreendimentos gerem cerca de 5,6 milhões de metros cúbicos de biogás por dia, o que corresponde a aproximadamente 61 % da produção nacional desse recurso. Esse dado evidencia a importância dos aterros como principal fonte de biogás no país, superando outras origens como resíduos agroindustriais e esgoto sanitário. Essa elevada participação se deve à grande quantidade de resíduos urbanos gerados, à concentração desses resíduos em grandes centros urbanos e à existência de infraestrutura de captação já instalada em muitos aterros.
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O processo de upgrading: do biogás ao biometano
A transformação do biogás em biometano representa um avanço significativo na agregação de valor dentro dessa cadeia produtiva. O biometano é obtido a partir da purificação do biogás, processo que envolve a remoção de dióxido de carbono, sulfeto de hidrogênio, umidade e outros contaminantes. Após esse processo, o gás resultante apresenta características muito semelhantes às do gás natural, podendo ser utilizado de forma equivalente em diversas aplicações. Entre essas aplicações destacam-se o uso como combustível veicular, a utilização em processos industriais, a geração de energia elétrica e a possibilidade de injeção em redes de distribuição de gás. Essa versatilidade amplia significativamente o mercado potencial do biometano e contribui para sua viabilidade econômica.
Os aterros sanitários desempenham um papel estratégico na cadeia produtiva do biometano devido, primeiramente, à grande disponibilidade de matéria-prima. Os resíduos urbanos são gerados de forma contínua e em grandes volumes, garantindo uma produção estável e previsível de biogás. Essa característica é particularmente importante quando comparada a outras fontes de biogás, que podem apresentar maior variabilidade na disponibilidade de substrato. Além disso, os aterros já possuem, em muitos casos, infraestrutura instalada para coleta e drenagem de gases, o que reduz significativamente os investimentos necessários para a implantação de sistemas de aproveitamento energético. Outro aspecto fundamental é o benefício ambiental associado à captura do biogás, que evita a emissão direta de metano na atmosfera e contribui para o cumprimento de metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.
O potencial de produção de biogás e biometano no Brasil é extremamente elevado. Estima-se que o país possua um potencial total de produção de biogás da ordem de 84,6 bilhões de metros cúbicos normais por ano, dos quais apenas cerca de 4,7 bilhões são atualmente aproveitados, o que representa aproximadamente 5,6 % do potencial total. No caso do biometano, o potencial estimado é de 44,1 bilhões de metros cúbicos normais por ano, enquanto a produção atual gira em torno de 0,67 bilhões, correspondendo a apenas 1,5 % do potencial disponível. Esses números evidenciam uma grande oportunidade de expansão do setor, especialmente considerando que uma parcela significativa desse potencial está associada aos resíduos urbanos e, portanto, diretamente vinculada aos aterros sanitários.
Perspectivas de mercado e previsão de investimentos
O setor de biogás e biometano no Brasil encontra-se em fase de expansão, com aumento gradual da produção e do número de projetos em desenvolvimento. A produção atual de biometano no país é estimada em cerca de 840 mil metros cúbicos por dia, com tendência de crescimento impulsionada por novos investimentos e pelo interesse crescente de empresas e investidores. Projeções indicam que os aterros sanitários brasileiros poderão atrair investimentos da ordem de 8 bilhões de reais até o ano de 2029, refletindo o potencial econômico desse segmento e sua importância estratégica no contexto da transição energética.
O biometano produzido a partir de aterros sanitários pode ser utilizado em diversos setores da economia. No setor de transporte, ele pode substituir o diesel em frotas de veículos pesados, contribuindo para a redução de emissões e custos operacionais. Na indústria, pode ser utilizado como combustível térmico em processos produtivos, substituindo fontes fósseis. Na geração de energia elétrica, o biometano pode ser utilizado em sistemas de geração distribuída ou centralizada, oferecendo uma fonte de energia renovável e despachável. Além disso, a possibilidade de injeção do biometano em redes de gás natural amplia sua integração com a infraestrutura existente e facilita sua comercialização.
Impactos positivos nos pilares ESG e desenvolvimento regional
Os benefícios associados ao aproveitamento do biogás de aterros são múltiplos e abrangem dimensões ambientais, econômicas e sociais. Do ponto de vista ambiental, destaca-se a redução das emissões de metano, um dos gases de efeito estufa mais impactantes, além da diminuição da dependência de combustíveis fósseis. Do ponto de vista econômico, o aproveitamento do biogás gera novas fontes de receita para operadores de aterros, estimula a criação de empregos e contribui para o desenvolvimento regional. No aspecto social, a melhoria na gestão de resíduos sólidos contribui para a redução de riscos à saúde pública e para a melhoria da qualidade de vida da população.
Apesar das inúmeras vantagens, o desenvolvimento do setor de biogás e biometano no Brasil enfrenta desafios importantes. Entre eles destaca-se a ainda limitada cobertura de aterros sanitários adequados, uma vez que parte significativa dos resíduos ainda é destinada de forma inadequada. Além disso, existem barreiras regulatórias que precisam ser superadas, incluindo a necessidade de maior clareza e estabilidade nas regras relacionadas à produção e comercialização de biometano. A viabilidade econômica dos projetos também pode ser um desafio, especialmente em casos onde a escala de produção é limitada ou onde há dificuldades na comercialização do gás. Outro aspecto relevante é a necessidade de controle da qualidade do biogás, especialmente no que se refere à presença de contaminantes como sulfeto de hidrogênio, siloxanos e oxigênio, que podem impactar os processos de purificação e o desempenho dos equipamentos.
Caminhos para a consolidação e políticas públicas
Diante desse cenário, diversas oportunidades podem ser exploradas para impulsionar o desenvolvimento do setor. A universalização dos aterros sanitários no país é uma medida fundamental, pois amplia a base de geração de biogás e melhora a gestão de resíduos. A criação de incentivos fiscais e financeiros pode estimular investimentos e viabilizar projetos. A integração entre políticas de gestão de resíduos sólidos e políticas energéticas também é essencial para promover sinergias e maximizar resultados. O estímulo ao uso de biometano no setor de transporte e a expansão da infraestrutura de distribuição de gás são outras ações importantes. A experiência brasileira com programas como o Proálcool demonstra que políticas públicas bem estruturadas podem transformar significativamente um setor e servir de inspiração para o desenvolvimento do biometano.
Em síntese, os aterros sanitários desempenham um papel fundamental na cadeia produtiva do biogás e do biometano no Brasil. Eles deixam de ser apenas locais de disposição de resíduos e passam a ser reconhecidos como verdadeiras biorrefinarias urbanas, capazes de transformar passivos ambientais em ativos energéticos de alto valor. Com grande disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura já existente e elevado potencial de mitigação de emissões, os aterros sanitários se posicionam como elementos-chave na transição energética brasileira.
No entanto, para que esse potencial seja plenamente aproveitado, é necessário avançar na superação de desafios estruturais, regulatórios e econômicos, promovendo investimentos e fortalecendo políticas públicas. Dessa forma, o biogás proveniente de aterros poderá contribuir de maneira significativa para a segurança energética, a descarbonização da economia e o desenvolvimento sustentável do país.
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Autor: Fábio Soares
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