O biometano pode substituir o diesel no Brasil?
O avanço de caminhões e tratores movidos a biometano mostra que o combustível renovável começa a ganhar espaço no transporte pesado, no agronegócio e na logística sustentável brasileira.
Por Heleno Quevedo - Colunista do Portal Energia e Biogás
Durante muitos anos, essa pergunta parecia distante da realidade brasileira. Afinal, o diesel sempre foi o combustível dominante no transporte pesado, no agronegócio e nas máquinas agrícolas. Mas o cenário começou a mudar. O avanço do biometano, aliado à chegada de novos caminhões e tratores movidos a gás natural e biometano, mostra que o Brasil iniciou uma transição energética que pode transformar profundamente o campo, a logística e a agroindústria.
A resposta mais realista para essa pergunta é: sim, o biometano pode substituir parte importante do diesel no Brasil, mas isso acontecerá de forma gradual, estratégica e conectada ao desenvolvimento de todo um ecossistema econômico e tecnológico.
O ponto mais importante é entender que o biometano não depende apenas da produção do combustível. Para essa transformação acontecer de verdade, é necessário que toda a cadeia avance junta.
Hoje já existe um movimento claro da indústria nesse sentido. O mercado brasileiro começa a receber mais opções de caminhões movidos a gás natural e biometano, como os modelos da Scania, incluindo versões de até 460 cv, os caminhões S-Way NG da Iveco, além da chegada de modelos pesados como o JAC Q7 560 da JAC Motors. Ao mesmo tempo, montadoras como Mercedes-Benz e Volkswagen Caminhões e Ônibus já realizam testes e avaliações de veículos movidos a gás e biometano em operações brasileiras.
No agro, o movimento também acelera. A New Holland Agriculture trouxe o trator T6 Methane Power, movido 100% a biometano, enquanto a Valtra apresentou trator equipado com motor a biometano desenvolvido pela engenharia brasileira. Isso demonstra que o setor de máquinas agrícolas começou a enxergar o biometano não como uma promessa distante, mas como uma solução real para determinadas operações do campo.
Esse avanço é extremamente importante porque o biometanocultor precisa de mercado. Produzir biometano em larga escala exige segurança de demanda. Não basta apenas instalar biodigestores e plantas de purificação. É necessário existir consumo contínuo do combustível.
Da mesma forma, os fabricantes de caminhões, tratores e motores também precisam enxergar crescimento do mercado para ampliar investimentos, reduzir custos e acelerar o desenvolvimento tecnológico. Ou seja, trata-se de uma construção coletiva.
O crescimento do biometano depende de um sincronismo entre diferentes setores:
- Expansão da produção de biometano;
- Aumento da oferta de caminhões e tratores;
- Desenvolvimento da infraestrutura de abastecimento;
- Criação de novos postos e corredores logísticos;
- Formação de mão de obra especializada;
- Crescimento do mercado de peças e assistência técnica;
- Adaptação das oficinas e concessionárias;
- Consolidação de políticas públicas e financiamento.
Tudo precisa crescer junto
Esse talvez seja o aspecto mais interessante dessa transição energética: ela possui forte potencial de desenvolvimento regional. Diferentemente do petróleo, que normalmente concentra riqueza em poucas regiões, o biometano pode estimular economias distribuídas pelo interior do Brasil.
Usinas sucroenergéticas, cooperativas, propriedades rurais, confinamentos bovinos, granjas, agroindústrias e aterros sanitários passam a participar de uma nova cadeia energética. O combustível deixa de vir apenas das refinarias e começa a ser produzido próximo das operações agrícolas e logísticas.
Isso cria empregos, movimenta a indústria regional, fortalece o setor de serviços e gera oportunidades tecnológicas em cidades do interior.
Ao mesmo tempo, o transporte pesado começa a se aproximar de uma lógica mais sustentável. O biometano possui potencial de reduzir drasticamente as emissões de carbono em comparação ao diesel fóssil. Além disso, motores movidos a gás normalmente apresentam menor emissão de material particulado, menos ruído e menos vibração.
Mas é importante ter uma visão equilibrada. O biometano ainda enfrenta desafios importantes.
A infraestrutura de abastecimento continua limitada em muitas regiões. O custo inicial dos veículos ainda é elevado. Existe necessidade de ampliar a capacitação técnica das oficinas e concessionárias. E o diesel ainda possui vantagens importantes em autonomia e disponibilidade logística nacional.
A substituição não acontecerá de maneira imediata ou total
O que provavelmente veremos nos próximos anos é uma expansão gradual do biometano em setores específicos onde a lógica econômica já começa a fazer sentido. Operações ligadas ao agro, usinas, logística regional, coleta de resíduos, transporte florestal e frotas dedicadas devem liderar essa transformação.
A transição energética brasileira talvez não aconteça da mesma forma que em outros países. Enquanto muitas nações apostam exclusivamente na eletrificação, o Brasil possui uma oportunidade única de desenvolver uma matriz baseada em combustíveis renováveis produzidos a partir de resíduos orgânicos.
O biometano não deve ser visto apenas como substituto do diesel, mas como parte de uma estratégia nacional de longo prazo para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, fortalecer o interior do país e transformar resíduos em desenvolvimento econômico.
No fim das contas, essa mudança não depende apenas de tecnologia. Depende de tempo, estratégia, investimentos e coordenação entre produtores, indústria, transportadores, montadoras e setor energético.
E talvez esse seja o maior sinal de que o biometano deixou de ser apenas uma tendência: o ecossistema começou a se mover ao mesmo tempo.
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Autor: Heleno Quevedo
Este artigo não é de autoria do Portal Energia e Biogás. Os créditos e responsabilidades sobre o conteúdo são do autor. O Portal oportuniza espaço para especialistas publicarem artigos e análises relacionados ao mercado de biogás, biometano e digestato. Os textos não refletem necessariamente a opinião do Portal.



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