Da logística ao SAF
A consolidação estratégica do biometano como vetor de descarbonização e competitividade
Por Redação, Portal Energia e Biogás
A última semana de janeiro de 2026 marca um ponto de inflexão na indústria de gases renováveis na América Latina, e especificamente no Brasil. Não estamos mais discutindo apenas o potencial teórico do biogás; as notícias recentes revelam um mercado em fase de execução acelerada, caracterizado por fusões e aquisições (M&A) táticas, abertura de corredores logísticos verdes e a entrada definitiva do biometano na corrida pelos combustíveis de aviação (SAF). O biogás deixa de ser um subproduto do saneamento ou do agro para se tornar um ativo energético premium.
O que aconteceu nesta semana
A leitura conjunta dos cinco fatos relevantes da semana desenha um cenário de maturidade industrial e integração regional.
- A "Molécula" ganha valor sobre o "Elétron": A aprovação do CADE para a venda da usina de geração distribuída da Raízen (Bioenergia Barra) para a GNR Dois Arcos (GDA) sinaliza um movimento sofisticado de alocação de ativos. A GDA, que já produz biometano no aterro de São Pedro da Aldeia (RJ), ao comprar a planta de geração elétrica, passa a ter controle total sobre o fluxo do biogás. Isso permite uma arbitragem estratégica: direcionar o biogás para onde houver maior rentabilidade, seja gerando energia elétrica ou purificando para biometano. É a busca pela eficiência máxima da molécula.
- O corredor verde Rio-SP é realidade: A operação logística da ICONIC (Texaco/Ipiranga) com carretas a biometano na rota Rio-SP, suportada pela Ultragaz, materializa o conceito de "Corredor Azul/Verde". Com autonomia de 650km e infraestrutura de abastecimento instalada, o projeto quebra o paradigma do "ovo e da galinha" (falta de demanda vs. falta de oferta). Isso ocorre no momento em que o Rio de Janeiro reafirma, via FIRJAN, sua posição de Hub de Gás nacional, embora ainda lute para destravar o escoamento do gás natural offshore.
- Escala industrial e política pública: A visita do governo de SP à usina de Caieiras reforça o papel do estado como grande indutor de demanda. Com meta de superar 700 mil m³/dia até o final de 2026, São Paulo está utilizando o biometano como pilar de transição energética, unindo a gestão de resíduos (saneamento) à política de descarbonização, validada por agências reguladoras (ANA).
- A nova fronteira tecnológica (SAF): Enquanto o Brasil consolida o uso rodoviário e industrial, o Uruguai apresenta um salto tecnológico disruptivo: a primeira planta comercial de SAF (Combustível Sustentável de Aviação) a partir de biogás e eletricidade (Power-to-Liquid via fotocatálise). Com produção 100% vendida à Trafigura, este projeto coloca um "farol de alerta" e oportunidade para o mercado brasileiro: o biometano é a matéria-prima da próxima geração da aviação.
O que está mudando e por quê
A análise transversal dessas notícias revela três tendências macroeconômicas que estão reconfigurando o setor:
1. Verticalização e Arbitragem de Produtos
O movimento da GDA/Raízen demonstra que os players não querem apenas "produzir biogás". Eles querem flexibilidade. Ter a capacidade de decidir, em tempo real, se o biogás vira eletricidade (para o mercado livre ou GD) ou biometano (para substituir diesel ou GNV) é o novo "pulo do gato" para maximizar margens e mitigar riscos de volatilidade de preços.
2. O Biometano como Solução de Escopo 3
A iniciativa da ICONIC não é apenas técnica; é uma resposta à pressão ESG de grandes embarcadores. O transporte pesado é a parte mais difícil de descarbonizar (hard-to-abate). O biometano se provou, nesta semana, a solução imediata (drop-in) e viável, dispensando a eletrificação de frotas pesadas que ainda é cara e complexa. A infraestrutura existente de GNV facilita essa transição, permitindo uma hibridização do abastecimento.
3. Inovação Disruptiva na Vizinhança
O projeto uruguaio de SAF desafia a liderança brasileira. Enquanto focamos no biometano para caminhões e indústrias, a tecnologia Syzygy Plasmonics no Uruguai mostra que o biogás pode alcançar mercados de valor agregado muito superior (aviação global). Isso deve acelerar a busca por parcerias tecnológicas similares no Brasil, dado nosso potencial de biomassa infinitamente maior.
Oportunidades de mercado e implicações para o Brasil
Para investidores, desenvolvedores de projetos e formuladores de políticas públicas, o cenário atual aponta caminhos claros:
- Expansão da Infraestrutura de Abastecimento: Há uma oportunidade urgente para empresas de distribuição de gás e postos de combustível replicarem o modelo da ICONIC/Ultragaz. O eixo Sul-Sudeste demanda "Postos Verdes" em rodovias troncais para viabilizar frotas dedicadas a gás.
- Arbitragem no Mercado Livre de Gás: Com a Nova Lei do Gás amadurecendo (como citado pela Firjan), produtores de biometano têm a chance de vender contratos de fornecimento direto para indústrias que buscam descarbonização, competindo ou complementando o gás natural fóssil do pré-sal.
- Corrida pelo SAF Brasileiro: O Brasil tem resíduos agrícolas (vinhaça, resíduos animais) em abundância. A tecnologia aplicada no Uruguai pode ser tropicalizada. Investidores devem olhar para joint ventures entre empresas de biogás e tecnologia química para produção de SAF e Metanol Verde.
- Financiamento e Créditos de Carbono: O caso de Caieiras (Solví) mostra que a receita acessória dos créditos de carbono (e futuramente outros certificados de ativos ambientais) é vital para o funding dos projetos. A monetização dos atributos ambientais deve ser parte central da modelagem financeira.
Conclusão e visão de futuro
A última semana de janeiro de 2026 deixa claro que o biogás e o biometano deixaram de ser promessas de nicho. O setor entrou em uma fase de profissionalização e escala.
A visão de futuro imediato aponta para uma integração maior entre o gás natural fóssil e o renovável. O Rio de Janeiro continuará sendo o hub do volume (gás natural), mas o biometano será o prêmio de qualidade ambiental, penetrando em frotas logísticas e indústrias com metas "Net Zero".
O desafio para o Brasil agora é duplo: infraestrutura e inovação. Precisamos garantir que o biometano chegue aos corredores logísticos (como a Dutra) e, simultaneamente, não podemos perder a janela de oportunidade do SAF, sob pena de ver vizinhos com menos biomassa liderarem a exportação de combustíveis de aviação de alta tecnologia. O biometano brasileiro está pronto para decolar, literalmente e figurativamente.
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