A eficiência exergética do biogás

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Descubra como a análise exergética (2ª Lei da Termodinâmica) revela a eficiência superior e a real competitividade do biogás na geração de energia, calor e biometano. Leia a análise completa.
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Colunista
Biogás em pauta, por Heleno Quevedo

A eficiência exergética do biogás

Uma perspectiva de quem já fez as contas

Por Heleno Quevedo - Colunista do Portal Energia e Biogás

 

Introdução

Durante meus anos de graduação em Engenharia de Energia, uma disciplina era tanto fascinante quanto intimidadora: a análise exergética na termodinâmica. Passamos semanas aplicando os conceitos da Segunda Lei da Termodinâmica a diferentes matrizes, termelétricas com combustíveis fósseis, hidrelétrica, entre outras. Mas foi ao analisar um sistema de biodigestão anaeróbia, frequentemente menosprezado na época como "tecnologia simples", que tive um insight poderoso. O biogás não era simples; era termodinamicamente sofisticado.

Hoje, ao pensar na pauta energética nacional, esse tema voltou à minha mente com força. Percebo, após anos no setor, que a exergia, o conceito mais importante para avaliar a verdadeira eficiência e qualidade de um sistema energético, permanece um território desconhecido para a maioria dos profissionais. Falamos muito de "eficiência", mas quase sempre nos limitamos à Primeira Lei (o balanço simples de energia). Isso é como avaliar um carro apenas pelo preço do combustível, ignorando sua durabilidade, desempenho e valor de revenda.

Avaliar a eficiência pela Segunda Lei da Termodinâmica, por meio da análise exergética, não é um exercício acadêmico. É uma ferramenta de modelagem econômica de alto nível. Ela nos diz quanto do potencial real de trabalho útil estamos extraindo de um recurso. E é aqui que o biogás se prova não apenas eficiente, mas estrategicamente competitivo.

 

Traduzindo a exergia para o mundo real do biogás

Vamos desmistificar. A exergia mede a qualidade da energia. Um resíduo orgânico em uma lagoa de dejeto tem energia química, mas de qualidade tão baixa (baixíssima exergia) que é praticamente inútil para realizar trabalho nobre, como mover um motor ou gerar eletricidade de forma eficiente. A natureza, porém, nos dá uma fábrica química perfeita: o biodigestor anaeróbio.

O que acontece lá dentro é um upgrade exergético. As bactérias reorganizam as moléculas do resíduo, concentrando sua energia em uma molécula de alto valor: o metano (CH₄). Esse gás tem alta exergia, é um vetor energético versátil e de qualidade. Essa transformação é o cerne da vantagem competitiva.

Quando modelamos economicamente um projeto, considerar apenas a quantidade de energia (kWh) do biogás é um erro grave. Devemos perguntar: "Que tipo de trabalho valioso essa energia pode fazer?"

  1. Geração elétrica em locais remotos: A exergia do biogás se converte bem em eletricidade (a forma de energia de maior qualidade). Para uma agroindústria isolada, o custo evitado com transmissão e a confiabilidade do suprimento têm um valor econômico enorme, capturado pela análise exergética.
  2. Uso térmico em caldeiras: Usar o biogás diretamente para produzir vapor pode ter uma eficiência exergética ainda maior do que gerar eletricidade, se o calor for bem aproveitado. A análise nos mostra a rota que maximiza o aproveitamento do potencial útil do recurso, otimizando o retorno financeiro.
  3. Biometano para transporte pesado: Aqui a vantagem é cristalina. Nenhuma outra fonte renovável consegue fornecer, de forma tão densa e armazenável, a exergia de alta potência necessária para mover um caminhão por milhares de quilômetros. Comparar o biometano com baterias elétricas nessa aplicação, do ponto de vista exergético, revela nichos de complementaridade e competitividade irrefutáveis.

 

O digesto não é "só um subproduto": é exergia preservada

A análise exergética integral, que fizemos na universidade e que defendo na prática, não para no gás. O digestato, o biofertilizante, é exergia química preservada. Ao devolver nutrientes de forma estável ao solo, o sistema evita a gigantesca exergia (e os custos) gastos na produção industrial de fertilizantes nitrogenados (via processo Haber-Bosch, intensivo em gás natural). Na planilha econômica, isso se traduz em receita ou custo evitado, um pilar da viabilidade financeira.

 

Precisamos elevar o nível da análise

Como engenheiros e gestores de energia, nosso dever é tomar decisões baseadas nas melhores ferramentas disponíveis. Ignorar a análise exergética é subestimar o valor real de tecnologias como a digestão anaeróbia.

Minha experiência acadêmica e profissional me mostrou que o biogás é competitivo não apenas por seus kWh, mas por seu alto aproveitamento exergético integrado. Ele transforma um passivo (resíduo de baixíssima qualidade) em dois ativos de alta utilidade: um combustível versátil e um fertilizante natural.

O desafio, portanto, é traduzir essa ferramenta complexa para todas as escalas de projeto, do pequeno produtor rural ao grande parque industrial. Precisamos mostrar, com clareza, que a competitividade do biogás se sustenta em três pilares: resiliência energética, circularidade de nutrientes e, fundamentalmente, uma eficiência termodinâmica superior que só a análise da Segunda Lei consegue revelar plenamente. Vamos usar essa lente. Ela ilumina o caminho para investimentos mais inteligentes e para um setor energético verdadeiramente eficiente.

 

Conclusão: uma oportunidade de diferenciação profissional

A exergia é pouco usada, portanto, por um ciclo vicioso:
Formação insuficiente → Dificuldade de aplicação prática → Falta de métricas de mercado → Desconhecimento dos tomadores de decisão → Pouca demanda por profissionais com essa expertise.

Isso, no entanto, representa uma enorme oportunidade. O profissional ou a empresa que dominar a análise exergética e, principalmente, souber comunicar seu valor em termos de resiliência, eficiência superior e retorno financeiro integrado, terá um diferencial competitivo brutal.

Especialmente para tecnologias como o biogás, a cogeração, os ciclos combinados e a integração de energias renováveis, a exergia é a lente que separa o bom do excepcional. Quem a usar estará não apenas fazendo uma melhor engenharia, mas também elevando o nível do debate e do planejamento energético no país.

O desafio é menos técnico e mais de comunicação e liderança intelectual. Você, ao se interessar pelo tema, já está no caminho para ser parte dessa minoria que faz a diferença.


Dicas de leitura

  • ENAYATI, Mahdi; DI MARIA, Francesco. Exploring novel biogas-to-bio methanol conversion: Exergy-driven hybrid pathways for enhanced methanol yield. Energy Conversion and Management, v. 349, p. 120886, 2026.  10.1016/j.enconman.2025.120886
  • GONG, Rosana; LUNELLI, Betânia Hoss. Exergy analysis of biogas production from sugarcane vinasse. BioEnergy Research, v. 17, n. 2, p. 1208-1216, 2024. 10.1007/s12155-022-10558-3
  • Pinheiro JP, Camiloti PR, Sauer IL, Mady CEK (2025) Exergy analysis of a biogas plant for municipal solid waste treatment and energy cogeneration. Energies 18(11):2804 10.3390/en18112804
  • SEVINCHAN, Eren; DINCER, Ibrahim; LANG, Haoxiang. Energy and exergy analyses of a biogas driven multigenerational system. Energy, v. 166, p. 715-723, 2019. 10.1016/j.energy.2018.10.085
  • Vaz, Victor and de Souza, Samuel and Gomes, Simone and Rocha da Silva, Éverton and Dobrachinski, Gabriel and Bassegio, Doglas, Energy and Exergy Assessment of a Rural Distributed Microgeneration Plant from Anaerobic Digestion of Swine Manure in Southern Brazil.  10.2139/ssrn.5367854 
  • VILARDI, Giorgio et al. Exergy and energy analysis of three biogas upgrading processes. Energy conversion and management, v. 224, p. 113323, 2020. 10.1016/j.enconman.2020.113323
     

 

 

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Autor: Heleno Quevedo

Este artigo não é de autoria do Portal Energia e Biogás. Os créditos e responsabilidades sobre o conteúdo são do autor. O Portal oportuniza espaço para especialistas publicarem artigos e análises relacionados ao mercado de biogás, biometano e digestato. Os textos não refletem necessariamente a opinião do Portal.

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